Envelhecimento em SP exige reviravolta na saúde pública
Estado vê população com 60 anos ou mais triplicar, desafiando o sistema com doenças crônicas e alta demanda por especialistas.

A virada demográfica paulista
O perfil demográfico do estado de São Paulo passou por uma reviravolta profunda nas últimas três décadas, alterando de forma drástica os desafios impostos à gestão da saúde pública. Nos anos 1990, a proporção era de quatro crianças ou adolescentes para cada grupo populacional, faixa etária que hoje encolheu para apenas 24% dos habitantes. Em contrapartida, a parcela da população com 60 anos ou mais disparou de 7% para 17%. Em termos absolutos, esse contingente idoso triplicou, saltando de 2,4 milhões para 7,6 milhões de pessoas. Pela primeira vez na história recente, as pontas da pirâmide etária — crianças e idosos — registram praticamente o mesmo peso no território paulista.
Do combate à mortalidade infantil às doenças crônicas
Enquanto no início da redemocratização o foco absoluto das autoridades sanitárias residia em frear a mortalidade infantil, mitigar a desnutrição, combater diarreias, pneumonias e estruturar o recém-criado Sistema Único de Saúde (SUS), o cenário atual exige outra estratégia. Com avanços expressivos no saneamento básico, nas campanhas de imunização e na medicina preventiva, a expectativa de vida no estado atingiu seu recorde histórico com 77 anos e dois meses. No entanto, viver mais cobrou seu preço em termos de morbidade. Condições de longo curso, como hipertensão, diabetes, câncer e patologias cardiovasculares, ganharam espaço massivo, impulsionadas também por hábitos associados ao sedentarismo, obesidade e colesterol elevado.
O sistema de saúde ainda não estava organizado e poucas cidades tinham saneamento básico. As principais causas de doença e morte das crianças eram problemas infecciosos, doenças contagiosas, desnutrição, diarreia e pneumonia
A pressão por atendimento especializado e saúde mental
A transição demográfica detonou uma corrida sem precedentes por consultas com especialistas, exames laboratoriais e procedimentos cirúrgicos de alta complexidade. Especialistas apontam que a rede atual sofre para coordenar os diferentes níveis de atendimento e zerar as filas de espera. Para piorar o cenário, a pandemia de Covid-19 deflagrada em 2020 aprofundou crises de ansiedade, distúrbios de sono e esgotamento mental, estourando a demanda por suporte psicológico e psiquiátrico na rede pública e suplementar.
Hoje precisamos olhar o paciente de forma integral. As doenças crônicas exigem acompanhamento constante e uma rede de saúde coordenada, em que os diferentes serviços conversem entre si
Longevidade com autonomia e o futuro do SUS
Apesar do aumento da carga de doenças, os idosos contemporâneos chegam à velhice munidos de maior autonomia, projetos de vida ativos e forte disposição para ocupar o espaço urbano. O grande nó górdio para os gestores públicos consiste em entregar uma infraestrutura médica capilarizada, que garanta geriatras, cardiologistas e hospitais eficientes para quem realmente precisa de internação, assegurando que o bônus da longevidade não venha acompanhado de exclusão ou abandono assistencial.
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